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Aos Alunos da Faculdade de Letras de Lisboa

Uma utopia é uma possibilidade que pode efectivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias provisórias que obstam à sua realização.

                                         Robert Musil, in introdução
                                                                        à obra Utopia de Thomas More

Mais uma anulação a Latim. Este o meu caso. Um caso pessoal e, por isso, subjectivo. Mas por que é que não havia de ser pessoal? No mesmo dia que anulei a Latim II, fui cumpridora da Lei, paguei as propinas. Não pagamos, não pagamos mas já pagámos e vamos continuar a pagar. Por que é que se paga o mesmo quer se inscreva numa ou em todas as cadeiras também é coisa que permanece inexplicável. Talvez para evitar o estudante diletante que cá vem fazer uma cadeira de vez em quando mas, e os outros? Os que trabalham e que fazem por estudar, os que não respiram só faculdade mas também, os que só podem assim, os que não são estudantes a tempo inteiro. Todos pagamos pela mesma medida. E se pagamos e se,  principalmente, cá andamos, ninguém melhor do que nós, alunos, para questionar se o ensino tem vindo a melhorar desde que passámos a contribuir para que ele subsista. Afinal por que não havemos de ser nós a escolher, e por que não também a decidir, qual o plano de estudos mais adequado aos nossos objectivos? Ao aluno deveria ser pedido à partida um plano de estudos,  traçado com vista a atingir um objectivo, fosse ele a via de ensino, fosse uma pós-graduação ou mesmo uma mera licenciatura. A partir daí a instituição já sabia com o que é que podia contar daquele aluno. Por seu lado, a faculdade deveria apresentar ao aluno numa espécie de pausa lectiva, tão em voga,  mas em que alunos e professores estariam presentes e activos levando a cabo a apresentação da interacção que se estaria para dar ao longo dos dois semestres; isto aconteceria logo nas primeiras semanas de aulas, uma espécie de ab initio,  e só depois partiríamos, já não tanto à descoberta mas antes ao encontro do aprofundamento dos conhecimentos desejados e necessários para cumprir os nossos objectivos e as nossas propostas enquanto estudantes. Porque toda a gente sabe que os programas de uma mesma cadeira variam de professor para professor, e que os professores também não são iguais. Seria natural, parece-me, que os quiséssemos conhecer, a eles, seres humanos  com quem vamos interagir  e principalmente às suas propostas de ensino,  antes mesmo de estarmos definitivamente  inscritos  nas turmas. 

Pareça tudo isto utópico ou desejável, é de referir que os próprios nomes dos cursos me surgem, agora à distância do tempo, visto eu ser aluna de 3º ano e ter estado 10 anos  ausente da faculdade, tendo este ano obtido o reingresso, como um tanto ou quanto enganadores. Isto porque um aluno caloiro chega a um curso de Línguas e Literaturas Modernas, faz essa opção, e quando dá por si já teve que se inscrever em Latim, o qual o acompanhará durante pelo menos três anos de curso, isto se não repetir a cadeira. Outra coisa que me deixa perplexa é a variante Estudos Portugueses. Além do estudo da Literatura Portuguesa  que se inicia com a Introdução aos Estudos Literários, passando para as Literaturas I, II e III e terminando com a Teoria da Literatura, até aí tudo bem, da Literatura Africana e Brasileira há apenas cadeiras anuais de segundo ano e depois, só no quarto ano é que voltamos a ter as duas a meias, isto é, um semestre para cada uma delas e está feito. Afinal que Estudos Portugueses são esses? Não haveria mais a esperar?  Quanto ao Latim...

Não tenho absolutamente nada contra o Latim, até me causa bastante admiração e fico grata a todos os investigadores que prosseguem na árdua tarefa de conhecer a Antiguidade Clássica em todas as suas expressões.  O conhecimento do Latim é precioso para conhecer os textos antigos, as obras clássicas, toda essa herança que é lição – e que Lição! – da História Europeia e Humana. A Antiguidade Clássica, pela sua modernidade e constante actualidade, justifica ser conhecida e mesmo aprofundada, mesmo nas Literaturas Modernas. Mas estudar Latim como uma língua que se aprende para ler, parece-me absurdo e desfasado da realidade.  Se a intenção última fosse hermenêutica, poder ler em toda a acepção da palavra, mais que ler, interpretar, então teríamos que aprender também alemão para ler textos do Nietzsche e por aí adiante. Mas isso parece não fazer muito sentido para nós, alunos de Latim vindos das Literaturas Modernas, que nos esfalfamos primeiro a decorar declinações, depois a traduzir textos, primeiro ao nível do ensino primário, com frases desmotivantes como Paula puella lusitana est , passando pouco depois para textos literários carregados de estilo e de retórica. Entretanto esta, a Retórica,  só se irá aprendendo ao longo do curso, noutras cadeiras, à medida a que vão surgindo as suas manifestações em todas as áreas da literatura,  - afinal o nosso curso é de Literatura, lembram-se? E ficam esses professores espantados por não sabermos a Retórica na ponta da língua como o rosa,rosae. Neste caso até acho que devia haver uma cadeira só de Retórica, onde se estudassem as várias retóricas, toda e qualquer retórica que, apresentando-se ainda hoje tão viva, torna-se necessário  estarmos sempre atentos e preparados para a conhecer em todas as suas facetas, veja-se os casos do discurso político, publicitário, etc.  O Latim, dizia,  complica-se, e quem passou no I parece que acha o II mais fácil; entretanto continuam a decorar-se coisas para os testes, matérias que enquanto tal se odeiam e varrem após cumprirem (ou não) a sua função avaliativa de conhecimentos. Mas porquê o decorar? Porque não o auxiliar de memória, porque será que os alunos continuam a ser solicitados a decorar e privados de construir e de se auxiliar do seu próprio material. Por que não os trabalhos em vez dos testes cronometrados, feitos sob tensão na corda bamba, sem outra rede que o mero decorar. Se um professor excelente em Latim for fazer um estudo ou uma  tradução de um texto ele terá que se auxiliar de preciosos dicionários e gramáticas que irá consultar árdua e demoradamente se quiser fazer um bom trabalho. Um trabalho acrescenta alguma coisa, é dinâmico, pode ser inovador e criativo, pode ter ideias das quais outras ideias poderão surgir, é o lugar privilegiado onde o aluno pode aprender alguma coisa por si próprio, onde aprende a investigar, a estudar,  a formular questões e a questionar-se. Enquanto que um teste, em termos da fórmula decoração/tempo de realização é um vexame para os alunos. Então eu tenho que traduzir um excerto do texto grandioso de A Ilíada, com base no que consegui decorar de gramática em contra-relógio, e ainda tenho que estar preocupada em decorar um rol sem fim de autores e obras, numa atitude de mera enumeração, de conhecimento inchado, sem que possa assim  dispor do tempo necessário para ler os autores clássicos transpostos em bom português, com a finalidade de conhecer as ideias fundadoras da cultura clássica (as excelentes e fiáveis traduções realizadas pelos estudos clássicos é para isso que existem).  Sem tempo para a leitura e reflexão que tais textos exigem, tempo empregue a decorar a gramática latina, até o seu sentido se esvai, quando é precisamente esse sentido que importa não perder, pois que é tão precioso também para os estudantes de Línguas e Literaturas Modernas.

A História da Língua, por exemplo, em vez de estar toda condensada num só ano, tornando-se mais um cadeirão que muitos alunos carregam pesarosamente, por que não ser dividido o seu conteúdo por mais um ano em que se incluiria toda a carga etimológica das palavras do português. Aí haveria oportunidade de dar a conhecer o que de pertinente a língua latina poderia oferecer a todo o estudante que quisesse leccionar Português ou que quisesse conhecer melhor a sua Língua e Linguagem. Intervenções do Latim aí tornar-se-ia pertinentes, tal como seria também pertinente o caso que atrás referi em relação à Retórica; e os textos literários clássicos, filosóficos e outros, seriam dados a conhecer na cadeira de Cultura Clássica, como aliás muito bem acontece. Então o Latim como língua, morta ou mais viva que outras vivas, não importa, continuaria a ser possível para quem o escolhesse como vocação ou como opção – os alunos de clássicos continuariam a existir e a aprofundar o Latim, e mesmo os de estudos modernos se assim o desejassem poderiam optar por aprender a língua nesses moldes se entendessem que isso iria ser útil para o seu plano de estudos inicial, esses tomariam essa opção de livre arbítrio, como os heróis.

Entretanto outros alunos poderiam achar que seria mais importante conhecer e aprofundar áreas da Filosofia, da História, etc. Já que ainda está longe o dia em que os alunos poderão ter um campus universitário onde haverá interacção entre as várias faculdades e os vários saberes, esse borboletar que se afasta do rastejar da lagarta, pressupondo já ter-se  ultrapassado a fase da crisálida, realizada já a metamorfose tão necessária ao evoluir das novas formas, então por que não começar por realizar essa interdisciplinaridade  dentro de cada faculdade, permitindo assim aos alunos ter um leque mais alargado de opções, no sentido de não irmos todos lá para fora ensinar as mesmas coisas e levando connosco tão pouca bagagem cultural, tão pouca substância, para oferecer aos alunos das escolas.

 O que eu quero aqui deixar expresso é que alunos que pagam propinas deveriam ter uma palavra. Afinal estamos ao nível do ensino superior, já não somos garotos e sabemos o que queremos ou, pelo menos, o que não queremos. Temos deveres e por isso é legítimo que tenhamos direitos.  Numa reestruturação nós, os alunos, devíamos ter uma voz activa porque afinal de contas é a nós que o ensino é dirigido. Devíamos ser tornados mais responsáveis, já que aqui estamos e aqui nos empenhamos. Só quando realmente pudermos escolher o que queremos para nós é que a responsabilidade deverá ser assumida ou então sim, o estudante universitário será legitimamente visto como um diletante sem objectivos.  E mesmo esse, inserido num curso de literatura poderia ser um aluno mais válido se incentivado. O incentivo à escrita criativa, por exemplo, que nesta instituição curiosamente é esquecido. Ou um aluno se mostra criativo dentro dos limites impostos por trabalhos de tipo ensaístico ou acaba até mesmo por se esquecer que a escrita literária é essencialmente criativa e que ensaiar essa criatividade é conhecer mais directamente o processo da escrita, da linguagem e, em última instância, do pensamento. Uma cadeira de escrita criativa, por que não, onde se debatessem temas, onde o aluno fosse solicitado a estar atento, informado, a questionar e a reflectir sobre as mais diversas questões... E uma maior interacção entre áreas do saber que se albergam debaixo do mesmo tecto, afinal inutilmente, já que entre elas não se estabelece qualquer diálogo: Filosofia e História, por exemplo, onde o aluno poderia escolher opções cujo conhecimento melhor poderia contribuir para a consolidação do plano de estudos traçado, se não o disse já antes.

Estas são questões de que se fala pelos corredores, entre alunos que se sentem de algum modo frustrados, lesados nos seus interesses, questões que se dispersam e diluem, nunca alcançando a força necessária, num modus vivendis universitário sem qualquer sentido e com o objectivo único de realizar os testes para obter a nota para passar e acabar com isto o mais rapidamente possível . Há um potencial recalcado de pessoas que de algum modo articulam estas questões em dados momentos do seu curso e mesmo os que não pensam muito nisso, se pensassem encontrariam aqui um reflexo dos seus anseios mais íntimos.  Afinal, qual de vocês é o aluno de letras que está plenamente seguro e convicto de que este corresponde à ideia de curso que se propuseram realizar. Ou eu me engano muito ou vocês não têm horizonte de expectativas. Se têm não estará ele a ser logo de início a ser gorado? Pensem nisso e não se esqueçam que todos os direitos foram sempre o resultado de  uma persistente conquista.  O pré-estabelecido  foi sempre um obstáculo às novas maneiras de pensar e de fazer e as utopias são sempre rasgos de ideal capazes de propor uma mudança. Isto se estivermos dispostos a mudar o que sentimos estar desfasado da realidade, porque não está a ser dinâmico,  e que sabemos estar inadequado aos nossos objectivos enquanto estudantes conscientes da faculdade de letras.

Maria Paula Montez, aluna do 3º ano do curso de Línguas e Literaturas Modernas da F. L. L. (Variante de Estudos Portugueses)